 cerco à Ponta
Tempestade.
Deixou o nome pairar por um momento. O rei franziu a testa
e nada disse. Parecia desconfortável.
- Isto é - terminou Ned em voz baixa, observando -, a não ser
que já tenha prometido a posição a outra pessoa.
Por um momento Robert teve a elegância de parecer
surpreso. Quase no mesmo momento, o olhar passou a
denotar aborrecimento.
- E se o fiz?
- É Jaime Lannister, não é?
Robert pôs de novo o cavalo em movimento com os
calcanhares e desceu a colina em direção aos outeiros. Ned o
acompanhou. O rei prosseguiu a cavalgada, com os olhos
fixos em frente.
- Sim - disse por fim. Uma única palavra dura para pôr uma
pedra sobre o assunto.
- O Regicida - retrucou Ned. Então os rumores eram
verdadeiros. Sabia que trilhava agora terreno perigoso. - Um
homem apto e corajoso, sem dúvida - disse com cuidado -,
mas seu pai é Guardião do Oeste, Robert. A seu tempo Sor
Jaime irá sucedê-lo neste título. Nenhum homem deve
defender tanto o leste como o oeste - deixou de dizer sua real
preocupação; que a nomeação iria pôr metade dos exércitos
do reino nas mãos dos Lannister.
- Tratarei dessa luta quando o inimigo aparecer no campo de
batalha - disse o rei teimosamente. - De momento, Lorde
Tywin paira eterno sobre Rochedo Casterly; portanto, duvido
que Jaime lhe suceda em breve. Não me aborreça com isto,
Ned, a pedra foi colocada.
- Vossa Graça, posso falar com franqueza?
- Pareço ser incapaz de te impedir - resmungou Robert.
Cavalgavam através do mato alto e castanho.
- Pode mesmo confiar em Jaime Lannister?
- É irmão gêmeo de minha mulher, um Irmão Juramentado
da Guarda Real, com a vida, a fortuna e a honra sujeitas às
minhas.
- Tal como estavam sujeitas às de Aerys Targaryen - Ned
ressaltou.
- Por que hei de desconfiar dele? Fez tudo o que lhe pedi. Sua
espada ajudou a conquistar o trono em que me sento.
Sua espada ajudou a manchar o trono em que senta, pensou
Ned, mas não permitiu que as palavras lhe atravessassem os
lábios.
- Fez o juramento de proteger a vida do rei com a dele
próprio. Depois abriu a garganta desse mesmo rei com uma
espada.
- Pelos sete infernos, alguém teria de matar Aerys! - disse
Robert, puxando as rédeas da sua montaria e fazendo-a parar
abruptamente junto a um antigo outeiro. - Se Jaime não o
tivesse feito, teríamos de ter sido você ou eu.
- Nós não éramos Irmãos Juramentados da Guarda Real -
Ned respondeu. Decidiu naquele local que tinha chegado o
tempo de Robert ouvir toda a verdade. - Recorda-se do
Tridente, Vossa Graça?
- Conquistei aí a minha coroa. Como posso esquecê-lo?
- Vossa Graça foi ferido por Rhaegar - recordou-lhe Ned. - E
assim, quando a tropa Targaryen cedeu e fugiu, deixou a
perseguição nas minhas mãos. O que restava do exército de
Rhaegar apressou-se em regressar a Porto Real. Nós os
seguimos. Aerys estava na Torre Vermelha com vários
milhares de lealistas. Eu esperava encontrar os portões
fechados às nossas forças.
Robert abanou impacientemente a cabeça,
- E, em vez disso, descobriu que os nossos homens já tinham
conquistado a cidade. E então?
- Nossos homens, não - Ned disse pacientemente. - Os homens
dos Lannister. Era o leão de Lannister que flutuava sobre os
baluartes, e não o veado coroado. E eles conquistaram a
cidade pela traição.
A guerra durara perto de um ano. Senhores, grandes e
pequenos, tinham se agrupado sob os estandartes de Robert;
outros tinham permanecido leais aos Targaryen. Os poderosos
Lannister de Rochedo Casterly, os Guardiães do Oeste,
tinham permanecido à margem da luta, ignorando os apelos
às armas vindos quer dos rebeldes quer dos lealistas. Aerys
Targaryen devia ter pensado que os deuses respondiam às
suas preces quando Lorde Tywin Lannister apareceu perante
os portões de Porto Real com um exército de doze mil
homens, declarando-lhe lealdade. E, assim, o rei louco
ordenou seu último ato de loucura. Abriu sua cidade aos leões
que estavam à porta.
- A traição era uma moeda que os Targaryen conheciam bem
- disse Robert. A ira lhe subia novamente. - Os Lannister
pagaram-lhes na mesma moeda. Não foi menos do que
mereciam. Não será isso que perturba meu sono.
- Você não estava lá - disse Ned, com amargura na voz. O
sono perturbado não lhe era estranho. Vivera suas mentiras
durante catorze anos, e à noite ainda o assombravam. - Não
houve honra naquela conquista.
- Que os Outros carreguem a sua honra! - praguejou Robert. -
Quando foi que algum Targaryen conheceu a honra? Desça à
sua cripta e interrogue Lyanna sobre a honra do dragão!
- Vingou Lyanna no Tridente - disse Ned, parando ao lado do
rei. Promete-me, Ned, sussurrara ela.
- Isto não a trouxe de volta - Robert afastou o olhar para o
horizonte cinzento. - Malditos iram os deuses. Foi uma vitória
oca, a que me deram. Uma coroa... foi pela donzela que orei a
eles. A sua irmã, salva... e minha de novo, como estava
destinada a ser. Pergunto-lhe, Ned, de que serve usar uma
coroa? Os deuses zombam tanto das preces de reis como das
dos vaqueiros.
- Não posso responder pelos deuses, Vossa G